“Um dia eu fiquei no shopping das 9 da manhã ás 10 da noite. Quando as portas abriram, eu entrei e lá fiquei até fechar. Eu voltei para o carro várias vezes para levar as sacolas e voltava para comprar mais. Fui para casa feliz, realizada. Tudo estava bem, eu experimentei todas as compras, escondi no armário, joguei fora as sacolas e somente comecei a pensar no que tinha feito no dia seguinte. Pensei no que teria que pagar e entrei em depressão”.
R$ 15 mil. Esse foi o valor gasto pela advogada Luciana (nome fictício), 37 anos, dentro de um shopping da cidade, em apenas um dia de compras. Luciana conta como foi parar na terapia e como reconheceu que tinha um problema, uma doença chamada oniomania, em outras palavras, o transtorno da necessidade incontrolável de comprar. Luciana é uma compradora compulsiva.
“É a descrição de um comportamento patológico, um distúrbio do comportamento. Refere-se a um descontrole da relação com as compras, do ato de comprar”, diz Daniel Fuentes, coordenador do Ambulatório de Jogos Patológicos e Outros Transtornos do Impulso (Amjo), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
Por ser uma prática aceitável e incentivada desde a infância, quando ocorre o descontrole excessivo dessa relação é mais difícil de detectar, para os amigos e familiares, do que outros transtornos, explica o coordenador do Amjo.
Luciana também precisou dos amigos e familiares para reconhecer que estava doente. “As brigas com meu marido começaram porque ele não conseguia pagar minhas contas, que eram cada vez mais altas. Isso porque ele não tinha conhecimento dos carnês e da minha conta bancária. Até que um dia ele disse que se não tomasse jeito ele iria se separar. Foi quando eu fui desabafar com uma amiga, de infância e ela disse que eu tinha um problema”.
A advogada não tinha coragem de procurar apoio, não queria que as pessoas a vissem como incapaz e tivessem pena. Ela só aceitou participar de terapia por entender que a amiga estava certa, ela não tinha uma relação saudável com compras. “Eu fui a uma consulta, expliquei como me sentia e iniciei um tratamento. Isso já faz quatro anos. Ali eu realmente percebi o quanto estava doente e foi muito difícil, pois durante o tratamento, eu tive várias recaídas, me endividava e mesmo tentando pagar essas contas eu voltava a contrair pequenas dívidas”.
Para Fuentes, o sintoma pode estar associado a transtornos do humor e de ansiedade, dependência de substâncias psicoativas (álcool, tóxicos ou medicamentos), transtornos alimentares (bulimia, anorexia) e de controles de impulsos. “A oniomania comumente aparece na presença de outro transtorno e precisa e deve ser tratada como doença, pois desestabiliza o social, pessoa e financeiro da pessoa”.
“Era sempre assim, na hora em que eu estava fazendo compras, eu sentia muita alegria, muita liberdade, uma sensação muito boa. No outro dia, uma sensação de derrota, de desgraça, pensando em como eu iria fazer com aquilo. Já cheguei ao ponto de levar minhas jóias para o prego, para conseguir dinheiro para comprar outras coisas, pagar dívidas que eu tinha”. No caso da advogada, a depressão foi diagnosticada como transtorno de base.
Mesmo não existindo um remédio que combata o desejo compulsivo de comprar, a melhor forma de se tratar pessoas com este problema é por meio da psicoterapia, além da necessidade de freqüentar grupos de auto-ajuda, como os Devedores Anônimos, que segue a mesma linha de atuação dos Alcoólatras Anônimos.
Além de cortar todas as formas de crédito, como cheques e cartões de crédito, o ideal é que alguém da família ou um amigo próximo assuma o controle das finanças do paciente. “O paciente elege um ‘Portador da chave’, uma pessoa próxima que o ajudará no combate ao consumo desenfreado”, conclui Fuentes.
Indução ao consumo
Para o professor de administração da USP e coordenador do programa de Administração de Varejo (Provar), Cláudio Felisoni de Ângelo, a propaganda é totalmente voltada para o estímulo do consumo. “Dizer que não sofremos a ação da propaganda é um absurdo. O processo decisório do consumo é proporcionado pelos sentidos, ou seja, ele é movido pela razão e pela emoção”.
Ângelo entende que a propaganda não é feita para incentivar uma pessoa a comprar de maneira compulsiva, mas que incentivar o consumo é o foco principal. Cabe ao consumidor decidir a necessidade do produto em sua vida. O professor define como grandes responsáveis pelo aumento do consumo, o crédito facilitado, financiamentos bancários, as promoções e grandes liquidações do varejo. Para o coordenador do Amjo os créditos facilitaram, e muito, o endividamento.
Grupos de ajuda
Os Devedores Anônimos (DA) foi criado para auxiliar pessoas que sofrem da oniomania. Segundo o grupo, o propósito de ensinar seus membros a reaprender a lidar com o dinheiro é o principal objetivo, e para isso realizam cálculos das despesas domésticas e as relacionam com os ganhos mensais da pessoa. O DA está no país desde 1997 e tem como base a proposta do DA criado em 1968 nos EUA e na Europa. Tem a mesma filosofia dos Alcoólicos Anônimos, com 12 tradições e 12 passos, substituindo as palavras álcool e sobriedade por débito/gastos e solvência, respectivamente. Para o DA, a oniomania é uma doença, acreditando que o consumo é um vício, assim como o alcoólatra tem seu vício na bebida.
Fuentes afirma que o sintoma ainda não pode ser considerado um diagnóstico, ou seja, uma doença, mas é tratado com psicoterapia e, em muitos casos, com remédios para os transtornos de base que acompanham a oniomania.
A reunião do Grupo de Devedores Anônimos tem início com a oração da serenidade e logo após há a leitura do texto sobre endividamento, com alguns tópicos sobre como identificar um DA. Os depoimentos são intercalados com a leitura das ferramentas do devedor anônimo.
Os relatos são, em sua maioria, muito parecidos uns com os outros, pessoas com certa independência financeira, com estabilidade de emprego, mas que começam a gastar de maneira descontrolada. Eles entram em um ritmo frenético para cobrir seus gastos, caindo em créditos e financiamentos como forma de pagar outras dívidas contraídas pelo consumo compulsivo.
Mantra
Um alcoólico anônimo tem como lema não beber o primeiro gole, mas para o comprador compulsivo o problema é mais complicado. Como não efetuar a primeira compra? Para Fuentes o devedor precisa entender que não é eliminando o ato de comprar que se trata a doença, mas sim comprando com moderação. “Não há como eliminar de uma vez por todas o ato de comprar, mas há como restabelecer uma relação sadia com as compras”. Para os Devedores Anônimos o mantra é “não fazer o primeiro débito”.
“Eu associo a sensação da compra ao consumo do álcool. Que seja pesquisado, mas eu acho que essa adrenalina das compras dá essa sensação de alegria, de entusiasmo e depois a sensação da desgraça é quando você não tem as sacolas na sua frente”, relembra Luciana, sobre a compulsão.
Sempre alerta
O depoimento da advogada começa com a frase: “fui uma compradora compulsiva e, até hoje, se eu não me cuidar, a minha conta vai estourar”. Em todos os depoimentos ouvidos há o mesmo relato, a vigilância constante para uma doença que não tem cura e sim uma forma de deter o impulso de comprar.
Luciana ressalta a importância de se sentir respeitada, mesmo com uma doença como a oniomania e alerta para a importância de se conhecer para depois melhorar. “Somente depois de um ano em terapia, que eu contei para meu marido sobre minha doença. Tinha medo, não da reação dele em relação ao nosso casamento, mas medo de não ser respeitada. Eu tive o respeito do meu marido, a compreensão de que necessitava, mas acima de tudo, o entendimento de que era uma doença e que eu estava lutando contra ela. Isso foi muito importante para mim no processo”.
Agora a compradora compulsiva está no fim do processo de quitação das dívidas e começa a traçar outras metas para sua vida. “Depois de quatro anos de tratamento, eu estou terminando de pagar aquelas dívidas de toda uma vida, e eu tenho um novo objetivo, que é passar para o andar de cima. Eu entendo que, durante o início da terapia, quando admiti uma doença e tracei meu plano de pagamentos, eu estava no subsolo, em direção ao térreo, onde estou quase chegando. Assim que a porta abrir, eu quero passar para o primeiro andar, ou seja, depois de pagar todos meus débitos, eu quero começar a guardar um pouco de dinheiro”.
Para Luciana, o indivíduo só pode melhorar a qualidade de vida se tiver autoconhecimento. E para ela custou quase tudo o que tinha de mais importante na vida para encarar essa realidade. “A pessoa precisa ficar sempre atenta e nunca achar que agora pode. Que depois de um tempo se controlando, pode voltar a ter talão de cheque, cartão e gastar. A minha história é essa”.
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